Cidade permacultural

O que é permacultura?

O termo permacultura nasceu na Austrália na década de 1970, fruto do encontro de Bill Mollison e David Holmgren. O professor e o aluno da universidade da Tasmânia estavam inconformados com as técnicas propagadas pela “revolução verde” que propunham a ideia da monocultura, o uso de agrotóxicos e outros insumos industriais para a produção de alimentos. Enquanto o agronegócio investia fortunas pregando que somente o seu novo método produtivo seria capaz de acabar com a fome do mundo, Bill e David pesquisavam e sistematizaram as formas de produção de alimentos dos povos originários australianos e depois de outras culturas tradicionais mundo afora, conectadas com a natureza.

Quando foi criado, o termo permacultura se referia a “agricultura permanente”, um modo de produzir alimentos conectado com a natureza. Tratava-se de uma resposta ao modelo difundido pelo agronegócio, que até hoje derruba florestas inteiras extinguindo espécies, polui solos, águas e não mede consequências em nome do lucro. Mas com o passar dos anos, a dupla compreendeu que não precisavam rever somente o modo de se produzir alimentos, mas de todo o modo de vida contemporâneo. Desenvolveram então uma metodologia de design permacultural, uma forma de organizar espaços habitados por pessoas baseados em 3 princípios éticos: cuidar da Terra, cuidar das pessoas e cuidar do futuro.

O conceito de permacultura não para de evoluir. Hoje em dia compreendemos a permacultura como “cultura da permanência”. Segundo o Núcleo de estudos em permacultura da Universidade Federal de Santa Catarina: 

“Atualmente a permacultura é considerada uma ciência socioambiental de planejamento de assentamentos humanos autossustentáveis, que evoluem naturalmente em relacionamentos dinâmicos e renováveis com o ambiente ao seu redor, que congrega o saber científico com o tradicional popular e visa, é claro, a nossa permanência como espécie na Terra.” (NEPERMA, 2024

Nós da rede Permacultores Urbanos entendemos que além de uma ciência que nos ensina a organizar ambientes, que a permacultura é uma forma de planejar e agir com ética e na direção da regeneração de áreas degradadas, seja na zona rural, ou nos ambientes ultra-adensados como a cidade de São Paulo.

O que é PDC? 

A fim de formar pessoas aptas a aplicar e difundir a permacultura mundo afora, Mollison desenvolveu um currículo com uma carga horária mínima de 72 horas, ministradas através de um curso, o PDC (sigla do inglês, Permaculture Design Course).

O curso de design em permacultura capacita pessoas a organizarem os seus territórios para viverem de forma harmoniosa com a natureza, aproveitando ao máximo os recursos presentes e exigindo o mínimo esforço dos seus habitantes.   

O que é permacultura urbana?

Quando concebida, a permacultura foi pensada para o contexto rural, mas considerando que 87% da população brasileira se encontra nas cidades, promover a permacultura urbana é fundamental. É verdade que no seu desenvolvimento, a permacultura foi pensada também para atuações em centros urbanos. Mas nenhuma publicação dos seus criadores contempla uma complexidade parecida com a que vivemos na ultra adensada cidade de São Paulo.

No livro Retrosuburbia (HOLMGREN, 2018), David propõe ideias e exemplos de planejamentos permaculturais nos suburbios australianos, onde casas possuem vastos quintais gramados que podem se tornar pequenos oásis. Mas a realidade dos suburbios brasileiros é muito diferente do contexto trazido no livro. David presenteou integrantes do coletivo PermaSampa com o livro e foi contundente:

“O que apresento neste livro não se aplica ao contexto paulistano. Vocês precisarão criar as suas próprias referências.”

A rede Permacultores Urbanos se dedica desde 2014 a pensar maneiras de adaptar a metodologia de planejamento permacultural ao contexto ultra adensado paulistano, assim como fazem outros coletivos, a exemplo da rede Permaperifa, rede permacultural constituída por diversos coletivos e pessoas que praticam Permacultura para e com a periferia.

O que é design em permacultura ou planejamento permacultural?

O design em permacultura é uma ferramenta de organização de assentamentos humanos que ajuda os seus habitantes a lidarem a atenderem as suas necessidades utilizando-se do mínimo de recursos externos e aproveitando ao máximo todos os recursos presentes. Alguns exemplos do que pode estar contido num design (ou planejamento permacultural):

Arquitetura bioclimática e bioconstrução

Uma casa que aproveita ao máximo a luz solar e utiliza portanto pouca energia elétrica para iluminação e com um ótimo sistema de ventilação cruzada, que garante frescor sem a necessidade do uso de ar condicionado são bons exemplos de estratégias da arquitetura bioclimática presentes em designs permaculturais. A utilização de paredes de terra ou de outras técnicas de bioconstrução também ajudam a garantir conforto térmico e acústico produzindo baixo impacto ambiental, uma vez que dispensa a compra de tijolos e toda a logística de transporte que queima combustíveis fósseis. Existe um amplo repertório de técnicas bioconstrutivas que fazem parte das estratégias de design permacultural, que variarão sempre de acordo com o contexto de cada projeto.  

Saneamento ecológico

Se na lógica da cultura vigente o esgoto é tido com um problema, fonte de poluição dos nossos córregos, rios e oceanos, na lógica da cultura da permanência o esgoto é visto como fonte de recursos. Explico: através do tratamento do esgoto é possível se produzir uma água boa para a fertilização e irrigação de sistemas agrícolas. Por exemplo, uma casa que utilize um biodigestor para tratar o seu esgoto, pode se utilizar do efluente produzido para fertirrigar um pomar com árvores frutíferas, uma vez que depois de tratadas, as águas não oferecem mais riscos de contaminação e também são ricas em nutrientes, favorecendo o crescimento das plantas e mantendo-as irrigadas a cada vez que se lava uma louça ou se dá uma descarga! Diversas técnicas de de saneamento ecológico fazem parte do repertório de um permacultura: bacia de evapotranspiração, círculo de bananeiras, vermifiltros, zonas de raízes e o banheiro seco são as mais populares. 

Energia

As populares placas fotovoltaicas que se utilizam da luz solar para a produção de energia elétrica, os geradores eólicos que usam ventos ou as usinas hidrelétricas, movidas à água dos rios são exemplos potenciais de tecnologias e fontes de energia elétrica. Além de aprender a produzir a sua própria energia, também podemos aprender a fazer uma melhor gestão dos recursos energéticos. Quando se responsabiliza pela produção da energia que consome, uma pessoa permacultora faz melhor uso dos recursos e começa a observar todos os pontos onde pode reduzir o uso desnecessário adotando por exemplo estratégias da arquitetura bioclimática nas construções ou otimizando processos. E a energia empenhada para se transportar insumos da composteira para a horta, será que poderia ser economizada revendo a localização destes elementos no nosso design permacultural?

Solos

A grande fonte de vida do planeta está escondida debaixo dos nossos pés. É nos solos onde habitam os microrganismos que estimulam a cadeia da vida e que fazem as plantas que alimentam a nós e aos demais seres vivos do planeta prosperarem. Um permacultor sabe como fechar o ciclo dos nutrientes e transformar os restos dos seus alimentos em adubo através da compostagem. Também aprende diversas técnicas e formas para se manter o solo vivo e consequentemente toda a vida que dele depende.

Produção de alimentos

Como cuidar de uma horta, roça, sistema agroflorestal ou até mesmo criações de animais, essas foram as primeiras coisas que Bill e David sistematizaram quando criaram o conceito da permacultura. Tudo isso faz parte das ferramentas que uma pessoa praticante da permacultura aprende a fazer ao longo da sua jornada. Mas o assunto é muito amplo: também aprendemos a reconhecer plantas alimentícias não convencionais que brotam pelas cidades além de plantas medicinais, que podem ser cultivadas e utilizadas para cuidar das nossas enfermidades.

Organizações sociais

Não é possível cuidarmos das pessoas sem revermos os nossos sistemas de organização social. A permacultura nos convida a repensarmos a hierarquização das estruturas sociais, a olharmos para as nossas metodologias de tomadas de decisões e a transformarmos a lógica da individualização da vida, numa lógica coletivista, onde o meu trabalho beneficia não somente a mim, mas também aos próximos seres vivos, sejam eles humanos ou não.

Como você pode perceber, a permacultura é uma ciência ampla, um enorme guarda-chuva que abriga as melhores ideias para a regeneração de áreas degradadas e criação de áreas de abundância e prosperidade. Você já é praticante? Vamos começar?

#boraregenerar

Referencias bibliográficas

HOLMGREN, David. Permacultura: princípios e caminhos além da sustentabilidade. / David Holmgren; tradução Luzia Araújo. – Porto Alegre: Via Sapiens, 2013. 416p.

HOLMGREN, David. Retrosuburbia – The Downshifters Guide to a Resilient Future – RetroSuburbia. [s.l.]: Melliodora Publishing, 2018. Disponível em: <https://retrosuburbia.com/>. Acesso em: 27 mar. 2023.

MOLLISON, B. C. Permaculture. Tyalgum, Australia: Tagari Publications. 1988.

MOLLISON, Bill; SLAY, Reny Mia. Introdução à Permacultura. Tradução de André Soares. Brasília: MA/SDR/PNFC, 1998. Disponível em: <https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/199851>.

Como citar esse conteúdo:

Permacultores Urbanos. O que é permacultura?. Disponível em: <https://permacultoresurbanos.com.br/o-que-e-permacultura/>. Acesso em: [DATA].